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A vida é mais simples

Luli Radfahrer na revista Webdesign – Abril/2008

A crescente velocidade da corrida tecnológica traz novos apetrechos o tempo todo. Do Blackberry à Wikipedia, do CSS ao RSS, muitas das coisas que dizemos e fazemos hoje jamais poderiam ser imaginadas há apenas alguns anos. A motivação expressa por trás de todas elas costuma ser a mesma: tecnologia é qualidade de vida e não há como negar que, por mais que o cotidiano continue a ser estressante, a produtividade e a conveniência são cada vez maiores.

Mas a tecnologia traz em sua bagagem um efeito colateral desagradável, uma mistura de arrogância de especialização com ganância de produtividade. Essa combinação tende a projetar (muitas vezes, escravizar) seus usuários a uma dependência ansiosa por mais informação e mais atividades. Por mais que estejamos na Era da Informação, nossos valores pragmáticos ainda são frutos da Revolução Industrial, do fim da escravidão e da carestia causada por duas guerras mundiais, uma crise do petróleo e eventuais rachaduras no sistema financeiro. Nesse conjunto de valores e eficiência, botões foram feitos para serem apertados e serviços para serem usados. Tê-los à disposição e não lançar mão deles configura desperdício, pecado mortal em tempos de Verdades Inconvenientes.

A mesma tecnologia que torna as coisas mais acessíveis também tende a torná-las mais complexas e confusas. Se você pode controlar o grão de uma foto, o tamanho de letra de um site ou nível de agudos de seu MP3 player, pode achar feio não fazê-lo, e se sentir ansioso ou culpado por isso. O mesmo vale para todo aquele conteúdo que, por mais que interesse, continua armazenado em uma lista de bookmarks, uma pilha de RSS ou mofando no fundo do seu HD.

O problema não é novo, seu avô já guardava recortes de jornal e o Caetano Veloso se lamentava que bancas de revista o enchiam de preguiça. “Quem lê tanta notícia?” era a pergunta que não ousava se calar. Meio século depois, ela poderia ser atualizada para “quem usa tanta coisa?” – e confirmada pela pilha de aparelhos empoeirados que, como a relação de sites e serviços não utilizados, continua a crescer e a alimentar a culpa.

Essa angústia crescente leva as pessoas a, inconscientemente, desejarem a simplicidade. Da mesma forma que pouquíssimos se interessam em saber como funciona um carro, um celular ou uma usina, o excesso de especialização dos produtos e serviços digitais se torna, a cada dia, menos interessante. O esforço simplesmete não compensa.

É fácil entender o sentimento, até porque ele é visível em outras áreas. Fotografia e Culinária são bons exemplos: apesar das noções básicas interessarem a praticamente qualquer um, poucos são os que teriam interesse em mergulhar a fundo no assunto.

Na verdade, as pessoas são simples. E você é uma delas. Sendo simples, tendem a gostar de coisas simples: emoção, diversão, companhia, alegria e, sobretudo, informação. As peças de Shakespeare são imortais por serem simples e tratarem de temas muito simples — traição, paixão, inveja, ódio. Elas poderiam ser entendidas por qualquer um, desde que encenadas e traduzidas para o português cotidiano.

Mais do que isso, simplicidade é sanidade. Ela pode ser vista em grandes professores e profissionais que se esforçam para explicar o que fazem em termos do cotidiano, em aparelhos que parecem “adivinhar” o que se espera deles, em produtos de design que parecem invisíveis quando não necessários, em obras-primas de artes plásticas e dança.

Culturas orientais sabem disso faz tempo, tanto que cultuam a simplicidade como valor em suas religiôes, formas de meditação, artes marciais, apresentação de pratos de comida, decoração e arquitetura de casas, cultivo de jardins. O resultado é tão contundente que, mesmo sem estar familiarizado, compartilhar ou entender o que se passa por ali, não há como negar sua beleza.

Hoje há quem se oponha à tecnologia ou sinta falta dos “anos dourados”. Me arrisco a dizer que em um mundo barulhento e desorientado, a nostalgia não é solução. Já a simplicidade no design de objetos, produtos e serviços é um possível caminho para a harmonia do homem consigo mesmo, com as inovações tecnológicas e com o planeta.

A atitude em busca da simplicidade se preocupa em racionalizar processos, resolver problemas, agregar e organizar funções, integrá-las e priorizá-las. Ao fazer isso, ajuda seus usuários a se organizar e aumentar sua eficiência. À medida que poupa o recurso mais precioso e escasso deles: tempo.

Ao remover o que é óbvio enquanto evidencia o que é relevante, a simplicidade transmite segurança e torna seu portador digno de confiança. É interessante pensar que, quanto mais botões um aparelho ou um serviço tiver, mais desconfiança ele tende a levantar. Quem mostra muito normalmente é porque tem algo a esconder.

É isso o que eu acho que a turma da Bauhaus quis dizer com “menos é mais”.




Luli Radfahrer é PhD em comunicação digital pela ECA-USP,
professor há mais de 15 anos e consultor em inovação em comunicação digital

 
 
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